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Inovação: futuro da indústria?, por Rodrigo da Rocha Loures


O deslocamento da produção manufatureira em direção à Ásia, a diferença brutal entre os custos de produção daqui e os de lá e a sinergia que existe entre os países asiáticos sinalizam uma ameaça permanente ao nosso sistema industrial.

Se olharmos para trás, desde o início da abertura comercial, das privatizações e em especial após a estabilidade econômica, vamos perceber que nossa indústria passou por uma enorme transformação. A abertura acirrou a concorrência, impôs a modernização da gestão e alterou profundamente as estratégias empresariais. As linhas de produtos mudaram de forma radical o layout e o desenho das plantas. O mesmo aconteceu com a gestão da qualidade. Um conjunto de atividades foi terceirizado, reduziram-se os níveis hierárquicos, novos serviços foram agregados à industria, em especial no relacionamento com seus clientes e, tímida e paulatinamente, a indústria incorporou uma agenda de inovação.

Em quase todos os setores industriais a parte mais relevante do valor agregado foi deslocada para as etapas finais de produção e comercialização. O fornecimento de insumos sofreu uma revolução. Na grande empresa essa mudança assumiu, por vezes, a forma de uma procura global, em outras de um modelo de hierarquização dos fornecedores e a introdução da noção "sistemista". A pressão ampla e generalizada pela redução de custos obrigou os fornecedores a baixar preços.

Essa competição feroz foi impulsionada pela China, com sua "deflação" de preços industriais. Muitas empresas valeram-se da possibilidade de ter insumos mais baratos e mantiveram sua posição de mercado, escalando para cima a cadeia de valor. São empresas cuja posição depende de outros ativos, muito deles intangíveis: sua rede de distribuição; seu pós-venda; a relação com os consumidores; ou ainda a sua marca e propriedade intelectual. Outras deslocaram suas plantas industriais ou parte de seus processos produtivos para a Ásia.

Isso tem tirado muita gente do mercado. Em termos agregados, o que sobra é um aumento das importações de bens finais ou a elevação do conteúdo importado da produção industrial. Esse jogo significou abandonar a tarefa árdua da manufatura e se dedicar mais e mais a encontrar soluções para a clientela. Ou seja, escalar as etapas de maior valor agregado. Todos seguem aqui o que a IBM já tinha feito década atrás.

Para poucos países, aqueles capazes de gerar superávit na sua conta de serviços, esse também não é um problema completamente insolúvel. A relação entre os Estados Unidos e a China é o exemplo marcante dessa nova realidade. Mas, para a maior parte dos países, aqueles incapazes de gerar superávit na conta de serviços ou que não contam com uma base de commodities para equilibrar seu saldo comercial, o desafio é muito maior.

No Brasil, vivemos a dubiedade de sermos competitivos em commodities e de termos um sistema industrial importante. Somos de um lado beneficiados pelo aumento dos preços de minérios e produtos agrícolas; mas sentimos a concorrência direta da produção manufatureira da Ásia. O pior de nossa posição é que um conjunto de fatores sistêmicos e de equívocos de política econômica realimenta esse processo.

Baixa escolaridade, juros altos, encargos e tributos elevados e burocracia excessiva compõem um custo sistêmico que compromete a competitividade. Para agravar tudo, na maior parte do tempo o câmbio esteve valorizado. Pior, todos os sinais indicam que o câmbio deve seguir valorizado em termos estruturais.

Abrir mão de nossa base industrial é um equívoco que poucos, nesta altura do desenvolvimento brasileiro, cogitam. Mas manter e ampliar essa base industrial requer ações de médio e longo prazo que ainda patinam. Não há no horizonte próximo qualquer sinal de mudanças substantivas capazes de proporcionar maior funcionalidade ao estado brasileiro. Por conseguinte o espaço de manobra que nos resta é trabalhar para uma agenda de competitividade em outras frentes.

Temos três questões complicadas a resolver: não permitir valorizações do câmbio e reduzir sua volatilidade; melhorar a qualidade do ensino e expandir de forma rápida a formação média, técnica e superior, especialmente em engenharia; reduzir o custo de capital e facilitar o acesso ao crédito de longo prazo. Não são tarefas simples e há anos elas habitam nossa agenda de "futuro". Mas sem encará-las de frente será difícil assegurar competitividade ao sistema produtivo brasileiro.

Há ainda uma outra frente de trabalho fundamental para o futuro da indústria. Trata-se de ampliar de forma significativa o esforço de inovação do setor privado brasileiro. Há espaço aqui para ganhos de competitividade que terão fortes impactos tanto macro, quanto microeconômicos. É uma agenda consensual, mas nem por isso será fácil de ser implementada.

Precisamos ampliar os incentivos às empresas para inovar e, em especial, fazer pesquisa e desenvolvimento. Esses incentivos melhoraram nos últimos anos, mas estão muito aquém do que fazem os países com os quais concorremos. Precisamos também articular planos, negociados com a iniciativa privada, do que vamos fazer nos setores produtivos que são estratégicos para nosso desenvolvimento.

Nossa forma de abordar a inovação é ainda tímida. Ou apoiamos projetos isolados ou formulamos planos nacionais pouco efetivos. Nossos planos são, em geral, formulações muito abstratas e de baixo impacto no sistema produtivo, na maioria das vezes organizadas por grandes áreas do conhecimento. Já há aprendizado suficiente em nossas agências e no setor privado para darmos esse salto.

Ele é mais do que necessário, pois essa é uma frente de trabalho que depende apenas de nosso esforço. Podemos fazer da inovação um tema relevante para dezenas de milhares de empresas brasileiras. Não é uma tarefa simples e vai requerer perseverança. Mas é possível e pode sinalizar um caminho positivo para dar sustentabilidade à base industrial brasileira nesse complexo cenário internacional que temos pela frente.

Fonte: Valor Econômico
Publicada em:: 09/03/2010

    

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